Duas irmãs

É Nelson Rodrigues puro:

a irmã cerebral, que dá passes de gênio;

a irmã corporal, que dribla até a si mesma.

.

A cabeça lê o jogo, faz planos pras jogadas e anda ereta pelo gramado.

A corpo dança, pula, seduz, humilha, goza e saracoteia pelo baile.

A cabeça avalia os pretendentes (poucos);

A corpo desdenha dos bobos (muitos).

A cabeça reclama que o pai não lhe dá mimos, só cobranças;

A corpo requebra no colo de milhões do papai.

A cabeça lembra um craque d’outrora;

A corpo joga em video-game.

A cabeça se esforça pra sorrir;

A corpo se derrete pra qualquer um.

A cabeça diz não vamos entrar nessa;

A corpo pega o copo do marinheiro e bebe com volúpia.

A cabeça sabe o que é volúpia, mas não tem;

A corpo não sabe nada, mas é.

Isso vai dar guerra…

.

No último ato,

a irmã-cabeça está cortada

num time de segunda linha da Europa.

A irmã-corpo é estátua-viva:

PAI (apertando as bochechas):

olha só que

mito-querido do papai!

Cidadania

Nos estádios de futebol

vemos mais do que a poesia fácil

dos craques.

Há o poema-sujo

das coisas que são

do

mundo –

como eu e você.

.

Só somos iguais na camisa

(e nos palavrões aos técnicos):

só te abraço aqui, em suma.

Das catracas do mundo pra fora,

segue tua vida.

.

Não acho mais que o campo

é portal para um mundo encantado:

é catraca pra dentro

do mesmo mundo.

Círculo de concreto

onde se joga bola

e ganha dinheiro.

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Assim,

sigo meu caminho de cidadão,

me desviando dos cambistas

e dos policiais de capacete e escudo

e dos cavalos

todos

que seguem seus caminhos de cidadão.

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Mas eis que começa tumulto.

Os garis

perseguem os vendedores de bebidas.

Limpam mais que as latas

(que guardam para vender depois – caminhos de cidadão).

Limpam a imoralidade do não pagar impostos,

lavam a debandada de divisas da municipalidade,

colaboram com os patrocinadores,

valorizam o comércio legalizado

(caminhos de cidadão).

.

Há quem veja futebol nisso tudo.

O drible do camelô,

o pique do gari

e a aproximação lateral do outro

até o bote certeiro

que rouba a caixa de isopor como bola.

Há quem peça falta,

grite com a Polícia,

se absurde.

Mas segue o jogo,

e cada um com seu azar.

O camelô cai de boca no pretume do asfalto pisado.

Caem as latas, o gelo, o isopor.

Cai assim o crime, o medo, a violência.

Cai um país de corruptos

(metonímia no corpo pobre do homem:

a pequena parte [paga] pelo todo).

Cai a grana investida pra gerar mais grana

(caminhos de cidadão desempregado).

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Os garis esperam os Guardas beberem,

para pegar as latinhas.

Assim,

vão obtendo,

aos trancos,

sua cidadania

brasileira.

Saudação a Javi Poves

[poema em processo]

.

Daqui do Brasil, de todas as épocas do meu cérebro,

saúdo-te, Javi, saúdo-te, meu irmão em Universo.

Eu, sem vestir camisas de times por ter esse nojo

que compartilhamos, te saúdo.

Não emprestar peito para out-door do que faz câncer,

do que apodrece esse jogo de bola

que aprendemos a gostar desde meninos.

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Como estive pensando em você essa noite, Javi.

A coragem de dizer não,

como se essa palavra curta fosse montanha e desfiladeiro

e você tivesse a coragem de subir e se pendurar

num céu de poucos.

Mas você diz que não há céu.

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Incendiando bancos, devolvendo carros e carreiras,

que garoto será você na pelada na rua que começa daqui a pouco?

Qual dirá: “para a bola, porque vem vindo uma senhora e ela é gente”?

Esse terá teu nome gritado nos lances,

escreverá na camisa comprada com dificuldade pelo pai

teu nome estranho de espanhol.

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Você diz Capitalismo e todos dizem besta:

no ônibus lotado, que finaliza o dia de durezas,

todos queriam o carro que você renega.

E o dinheiro que você abre mão

não é nem troco para os craques daqui

(mas daria – e sobrava – para muitas jantas de hoje).

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Te saúdo deste país próspero, que nunca se iludiu tanto.

Todos são felizes, pois há muito dinheiro e pouca falta

(e quando falta, falta pra outro).

Aqui, Javi, um homem perde em um dia

o que 4.000.000 ganhariam num mês.

E ainda temos futebol.

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Professor de coragem, anti-o que for desumano,

leva tua revolta pelo mundo,

mostrando que as máfias persistirão

enquanto criarmos máfias para acabar com elas.

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O importante, Javi, é que você não é herói, mito ou deus.

Nunca te chamarão de gênio, nem terá fotos de gol nos jornais.

Não estará em Copa do Mundo, nem nos álbuns de figurinha.

Pelo contrário, aparecerá teu nome do lado da chamada: LOUCURA

nos tablóides que são vendidos como verdade por essas bandas.

E muitos dirão: mas quem era ele para parar?

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É aí que eu gosto.

Gosto dessa declaração de humanidade,

deste assumir-se gente e destruir a própria estátua

(que, convenhamos, nunca foi levantada).

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Você diz Não! e sai.

Para as Histórias do Futebol?

.

Me parece que você prefere mais

sair da história

e entrar na vida.

Aquele que diz não

E uma hora os ricos perderão a Bolsa

(roubada por outros ricos).

E os postes das ruas serão pouco:

a luz virá do fogo.

E a cidade uma imensa crackolândia da Bolsa supra-citada.

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E também futebol

vai sentir: os milionários

verão que seu dinheiro

que iludia pontes,

só cavava abismos.

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Um perde 5 milhões na especulação pessoal.

Pedestres se homicidam nos carros.

A Rota mata.

O campeonato empolga, mas o ônibus desanima.

O sistema-latrocida: mata pra roubar.

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Barões da bola acendem seus charutos com notas de meninos.

Estes: dinheiro, iate, mulheres, carros, mansão, mulheres, dinheiro, iate.

Sorte que a vida é retrovisor

(no espelho, as coisas parecem maiores do que realmente são).

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O ópio do povo

canal(h)iza.

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A história não ensina:

ela me largou quando acabou meu dinheiro.

Tive, amigos, que, sumiram, etc, etc, etc.

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Mas há um debate fundamental na nação:

o papel do cu.

Cu-opinião: cada um dá o seu.

Em português-brasileiro: você pode dar o seu cu, mas defenderei até a morte o direito

de você morrer por isso.

Meio: Ricardo Teixeira caga um monte. Outros dão o cu.

E o Brasil mais preocupado com o que entra do que com o que sai

(isso é Bíblico, senhores legisladores).

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Só que,

no meio sujo do mar de moedas da bola,

um homem diz:

Chega!

Afasta de mim esse cálice, que eu não vou cair nessa de cicuta.

Fique com tuas coisas, que meu reino não é daqui.

Mas mostraram o mundo e ele disse não!

Iate, mulheres, mansão, carros, dinheiros – não!

O jogador em construção diz não!

Lhe dizem é normal ser jogado do desfiladeiro

e cair no colchão de notas

onde repousará sua cabeça

e ele diz não!

Aquele que diz não

e ofende ao usar palavra velha:

Capitalismo.

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Javi Poves levanta o braço e diz não!

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Nós, utopistas,

enxergamos uma imensa Ola

que levantará pra

dizer junto:

não!

Pedra

São nóias buscando o craque na balada:

zumbis desnorteados atrás da pedra

pra apedrejar o outro.

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Relação doentia,

aquela coisa de acariciar com navalha na mão:

se eu te amo e tu (diz que) me amas

como poderei te libertar?

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Tá feito: troca o time de homens

pelo de joão-bobos

(o balançar sóbrio dos bonecos de plástico).

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Assim, torcedor, teu time joga bem.

Mas você,

doidaço na arquibancada,

vai perceber?

Renda

Todo o milharal de gente junta

paga (só nesse jogo)

o salário do atacante

indolente.

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Descer essas escadas do estádio

nos faz mais atletas

do que o atacante

indolente.

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A namorada enojada,

que chuta a lata de cerveja,

chuta melhor que o atacante

indolente.

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É que daqui de cima a gente não vê:

há uma poltrona de repouso

e o atacante

faz a renda

no seu pé-de-meia.

Público

A palavra corta dos dois lados:

– denota assistir do lado de lá do palco

– denota pagar a festa do pós-jogo.

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Estranha ambivalência:

1) parceria-público-privada

investimento público

cargo público.

2) hospital público

banheiro público

público pagante.

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Parceria dissecada:

o público entra com a bunda,

o privado entra com a mão.