[poema em processo]

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Daqui do Brasil, de todas as épocas do meu cérebro,

saúdo-te, Javi, saúdo-te, meu irmão em Universo.

Eu, sem vestir camisas de times por ter esse nojo

que compartilhamos, te saúdo.

Não emprestar peito para out-door do que faz câncer,

do que apodrece esse jogo de bola

que aprendemos a gostar desde meninos.

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Como estive pensando em você essa noite, Javi.

A coragem de dizer não,

como se essa palavra curta fosse montanha e desfiladeiro

e você tivesse a coragem de subir e se pendurar

num céu de poucos.

Mas você diz que não há céu.

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Incendiando bancos, devolvendo carros e carreiras,

que garoto será você na pelada na rua que começa daqui a pouco?

Qual dirá: “para a bola, porque vem vindo uma senhora e ela é gente”?

Esse terá teu nome gritado nos lances,

escreverá na camisa comprada com dificuldade pelo pai

teu nome estranho de espanhol.

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Você diz Capitalismo e todos dizem besta:

no ônibus lotado, que finaliza o dia de durezas,

todos queriam o carro que você renega.

E o dinheiro que você abre mão

não é nem troco para os craques daqui

(mas daria – e sobrava – para muitas jantas de hoje).

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Te saúdo deste país próspero, que nunca se iludiu tanto.

Todos são felizes, pois há muito dinheiro e pouca falta

(e quando falta, falta pra outro).

Aqui, Javi, um homem perde em um dia

o que 4.000.000 ganhariam num mês.

E ainda temos futebol.

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Professor de coragem, anti-o que for desumano,

leva tua revolta pelo mundo,

mostrando que as máfias persistirão

enquanto criarmos máfias para acabar com elas.

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O importante, Javi, é que você não é herói, mito ou deus.

Nunca te chamarão de gênio, nem terá fotos de gol nos jornais.

Não estará em Copa do Mundo, nem nos álbuns de figurinha.

Pelo contrário, aparecerá teu nome do lado da chamada: LOUCURA

nos tablóides que são vendidos como verdade por essas bandas.

E muitos dirão: mas quem era ele para parar?

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É aí que eu gosto.

Gosto dessa declaração de humanidade,

deste assumir-se gente e destruir a própria estátua

(que, convenhamos, nunca foi levantada).

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Você diz Não! e sai.

Para as Histórias do Futebol?

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Me parece que você prefere mais

sair da história

e entrar na vida.

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