Nos estádios de futebol

vemos mais do que a poesia fácil

dos craques.

Há o poema-sujo

das coisas que são

do

mundo –

como eu e você.

.

Só somos iguais na camisa

(e nos palavrões aos técnicos):

só te abraço aqui, em suma.

Das catracas do mundo pra fora,

segue tua vida.

.

Não acho mais que o campo

é portal para um mundo encantado:

é catraca pra dentro

do mesmo mundo.

Círculo de concreto

onde se joga bola

e ganha dinheiro.

.

Assim,

sigo meu caminho de cidadão,

me desviando dos cambistas

e dos policiais de capacete e escudo

e dos cavalos

todos

que seguem seus caminhos de cidadão.

.

Mas eis que começa tumulto.

Os garis

perseguem os vendedores de bebidas.

Limpam mais que as latas

(que guardam para vender depois – caminhos de cidadão).

Limpam a imoralidade do não pagar impostos,

lavam a debandada de divisas da municipalidade,

colaboram com os patrocinadores,

valorizam o comércio legalizado

(caminhos de cidadão).

.

Há quem veja futebol nisso tudo.

O drible do camelô,

o pique do gari

e a aproximação lateral do outro

até o bote certeiro

que rouba a caixa de isopor como bola.

Há quem peça falta,

grite com a Polícia,

se absurde.

Mas segue o jogo,

e cada um com seu azar.

O camelô cai de boca no pretume do asfalto pisado.

Caem as latas, o gelo, o isopor.

Cai assim o crime, o medo, a violência.

Cai um país de corruptos

(metonímia no corpo pobre do homem:

a pequena parte [paga] pelo todo).

Cai a grana investida pra gerar mais grana

(caminhos de cidadão desempregado).

.

Os garis esperam os Guardas beberem,

para pegar as latinhas.

Assim,

vão obtendo,

aos trancos,

sua cidadania

brasileira.

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