Nosso 10 é o 8

Magia

É que essa magia dos craques que assisto

não é de outras teologias

não é ocultismo

não é vodu, xamanismo,

pajelança anti-lógica

encolhedora de cabeça

ou amarração do amor.

.

É só ilusionismo.

O truque de passar a bola rápida entre os pés

de ter botão debaixo da mesa

fundo falso, nuvem de fumaça:

é David Copperfield.

.

O tigre que cavalgam é digital,

Siegfried and Roy dos melhores momentos:

a bola faz piruetas (mas dentro não vemos o controle remoto).

.

Não sabem ervas, nem invocam espíritos invocam espíritos:

são intrincados mecanismos de silício e evangelho,

monoteístas demais pra possessões.

.

Ilusionam como executivos:

vim, vi e venci.

.

Não são magos:

são joysticks.

Narração

O lance

é não perder a piada:

piu.

.

O comentário:

comentamos o que foi comentado,

comentando com comentários

o comentário.

.

Blábláblá…(x140)

Gringo

A fronteira do Brasil usa cinto de castidade:

mestre forasteiro não bota a mão na seleção!

Menina pura criada pra ser retalhada

entre o capital internacional,

não terá fräulein gringa ensinando

segredos de liquidificador.

.

Na TFP do futebol, como esquecer da pátria?

Imagina o time de guerreiro

guiado por um argentino

(Oh, Capitán, mi Capitán!)?

.

Na TFP do futebol, como tirar das famiglias da bola

o direito de ter o filho bacharel em futebolês

sendo técnico do escrete pentacentão?

Imagine sir Professor Sparrow, PhD.

.

Na TFP do futebol,

o Brasil é para os brasileiros.

.

Só numa hipótese, o gringo viria:

se a Propriedade continuar dando prejuízo.

.

Afinal, a TFP brasileira conserva a Tradição:

mas a Famiglia precisa de Propriedade.

Rogério Ceni

Tem esse lado Pós-moderno dele,

de falar calculadinho,

que deixa tudo chato pra caralho.

.

Mas tem o outro.

Esse é Romântico.

.

Romantismo de só desejar uma camisa.

E não se trata de monogamia fingida

de casal oficial – é Amor.

.

Romantismo de dizer pro torcedor:

compra minha camisa e fica sossegado,

não vai mudar ano que vem.

.

Não ser folhinha de calendário.

Ser monumento.

Bandeiras

Não são as bandeiras que matam.

São as falanges que as seguram -

mas essas são parte fundamental da máquina.

São mastros onde a política pendura

sua bandeira de pirata,

eixos violentos que fazem a linha andar na linha reta.

.

Bandeiras são gritos que dão em linha curva:

o que pensamos, mais o braço e o vento.

Como um caldeirão de almas que se mexe,

como o mar, se defendesse ideias.

.

Gritos não param no ar.

Quando se mata, é na garganta.

Cacetete no pescoço,

mordaça,

cala que nem te escuto.

.

As bandeiras voltam.

A violência nunca saiu.

Desmaterializou de madeira

em braço,

cavalo

ou confederação.

Democracia

Em português-brasileiro,

Democracia

significa

governo do demo.

.

Então, abusa, abraça o diabo

(benefício de ser assexuado),

e faz um grande país do teu gosto.

É estar na moda:

customizar

leis

a gosto do freguês

(e seus costumes).

.

Se se morre de fome básica,

o que esperar do ópio?

(agentenãoquersócomidaagentequercomidadiversãoearte)

Se gente morre, é o limite.

.

E lá vai futebol,

gangsterizando.

Se acha ruim, problema é teu, torcedor.

.

Nem falo em censura – os times não têm ouvido.

Não precisa de jagunço de espingarda:

o campo é longe pra tua voz se dissipar em vaia.

E vaia é assim: palavrão esfarelado em palavrinha.

Ex.: vai tomar no cu! → u

.

O futebol é empresa pra quem você torce

o coração ao meio

e pinga sangue.

Mas é capitalismo duas caras:

uma olha pra hoje (o olho brilha em euro),

outra pro passado (quebrou, pagou).

.

O torcedor clama: um SAC, um Ombudsman,

uma Ouvidoriazinha que me ouça.

Um e-mail, ainda que em formulário.

Um atendente de telemarketing, ainda que mal-entendido.

.

Mas não.

Se vira, meu.

.

Na Democracia sem votos

dos times de futebol,

Presidente não te escuta

nem em ano

(de colégio)

eleitoral.

 

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